Em dois dias de articulação, jovens discutem as principais demandas de suas aldeias e elaboram documento para ser levado ao poder público em Brasília.

A jovem liderança Lisandrea Santos fala sobre a luta indígena no primeiro dia do Encontro.

No dia 28 de outubro, o primeiro ônibus a estacionar em frente a escola Ñandejara Polo, situada na aldeia Tey’ikue em Caarapó (MS), trouxe cerca de 30 indígenas da Aldeia de Panambizinho que, ainda tímidos, desembarcaram com seus colchões, barracas e sacos de dormir. Não demorou muito e não se via mais a fachada da escola onde aconteceu o Encontro Geral de Crianças e Adolescentes Guarani e Kaiowá: cerca de 300 participantes, entre jovens, lideranças e rezadores, trocavam abraços e conversavam. A expectativa para o final de semana era grande.

O evento de dois dias fez parte do projeto Direitos e Cidadania de Crianças e Adolescentes Guarani e Kaiowá, realizado pela organização Imagem da Vida em parceria com a Secretaria Especial de Direitos Humanos.

O objetivo do Encontro foi discutir as prioridades do jovem Guarani e Kaiowá nas diferentes realidades expostas por participantes de 23 aldeias da região. “De que forma o jovem pode contribuir para o desenvolvimento de sua aldeia?”, questionou o professor doutor indígena Eliel Benites¹ na abertura do Encontro.

Regado a chicha e muito Guaxiré, dança tradicional Guarani e Kaiowá, o evento possibilitou também que lideranças e rezadores compartilhassem os saberes tradicionais com os jovens presentes, a fim de reforçar a importância da tradição. As relações inter-geracionais são tidas pelos mais velhos como cruciais para a compreensão e força da luta do povo indígena, que só se manterá viva através do envolvimento e militância dos jovens guerreiros.

“Se essas pessoas [lideranças indígenas e rezadores] morrerem, quem é que vai lutar por nós?”, disse Giovane Aquino (19), da aldeia de Panambizinho, em entrevista para a equipe Imagem da Vida. Giovane acredita que o jovem Guarani e Kaiowá está mais atento e envolvido com a luta do povo indígena: “Nós jovens devemos procurar mais informações e pesquisar sobre as leis, sobre a constituição Federal, sobre quais artigos que defendem a gente”.

Rezador e crianças na abertura do Encontro.

Desde que o movimento indígena Aty Guasu passou a organizar ocupações de terra como estratégia para pressionar o Estado brasileiro no processo de demarcação, os indígenas Guarani e Kaiowá sofrem violações dos direitos mais básicos como o acesso à alimentação, educação e saúde. A luta do povo indígena não é apenas pela demarcação de terras e pela garantia de seus direitos, mas essencialmente pelo modo de ser Guarani e Kaiowá.

 A terra é, portanto, sinônimo de luta: “A importância da terra pra nós é pra gente viver, pra gente resgatar a nossa cultura, […] se a gente não tiver terra, onde é que a gente vai viver?”, questionou Dionara Gomes (17), da aldeia de Guaiviri, em um dos grupos de trabalho. “É só se a gente pegar a nossa terra de volta, porque a terra é nossa, onde foi derramado o sangue de muitos indígenas”.

Desde 2003, foram registrados cerca de 400 assassinatos de índios guaranis em conflitos por terras no Mato Grosso do Sul², número crescente que vem alertando a comunidade internacional. Em setembro deste ano, a relatora especial da ONU para Direitos dos Povos Indígenas, Victoria Tauli-Corpuz, denunciou retrocessos na proteção dos direitos dos povos indígenas no Brasil, afirmando que o Brasil não deve subestimar os riscos de “efeitos etnocidas” que o cenário atual representa para os povos indígenas.

As demandas levantadas nos dois dias de Encontro serão compiladas em um documento oficial, que será levado ao poder público em Brasília por uma delegação composta por 30 jovens indígenas Guarani e Kaiowá.

¹ Eliel Benites foi o primeiro professor Guarani e Kaiowá da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD).

² Segundo número levantado pelos indígenas.

Sem Comentários

Você pode ser o primeiro a comentar.

Deixe um Comentãrio

Please enter your name. Please enter an valid email address. Please enter a message.

Que tal nos visitar no Facebook? :)

Facebook